Médicos de Portugal

Chichi na cama (Enurese na criança)

Mário Beja Santos

Data: 2011-11-28



Esta perda involuntária de urina numa idade em que a criança, em princípio, já devia conseguir controlar-se, ocorre, na maioria dos casos, exclusivamente durante o sono, sendo por isso designada por enurese nocturna. Sendo uma situação frequente (calcula-se que cerca de 20 por cento das crianças faz chichi na cama até aos 5 anos), de um modo geral irá desaparecer espontaneamente, mas há casos em que requer tratamento específico, intervenções comportamentais e, numa percentagem mínima, esta perda involuntária poderá ser sintoma de uma doença.


A enurese pode ser classificada em primária quando nunca a criança controlou a sua bexiga, e secundária quando a criança controlou a bexiga por um período até 6 meses e após esse tempo surgem manifestações (mesmo episódicas) de incontinência urinária.


 


Qual é a causa desta enurese nocturna?


A causa exacta não é conhecida, sendo vários os factores orgânicos que podem desencadear a perda involuntária e frequente de urina: a existência de um atraso na coordenação dos esfíncteres (músculos que actuam como válvulas) da bexiga; o que faz com que durante o sono, quando a bexiga está cheia, as contracções não sejam contrariadas; o facto de a bexiga ter menores dimensões, e a menor capacidade de concentrar a urina durante o sono.


Na maioria dos casos não há causa específica. Fazer chichi na cama não é culpa das crianças. Há factores como o stresse (a chegada de um novo irmão, os primeiros contactos com a escola, violência física ou psicológica em meio escolar...), a ingestão de bebidas que contêm cafeína (a cafeína aumenta a quantidade de urina, tem efeitos diuréticos), a prisão de ventre (as crianças que têm obstipação crónica têm maiores probabilidades de sintomas de enurese nocturna). Com causa ou sem causa específica, pode marcar um ser humano. Um famoso escritor britânico, George Orwell, mundialmente conhecido por ter escrito "1984", escreveu, a propósito da enurese: "Eu sabia que fazer chichi na cama era algo de reprovável, mas eu não podia dominar-me.


Cometia assim a falta, involuntariamente, mas não conseguia evitá-la. Vivia com o sentimento de culpa que nunca mais esqueci".


A enurese pode ser uma manifestação de doença em casos muito raros: infecção urinária, apneia do sono, diabetes, por exemplo. O médico pode apurar as verdadeiras causas após exame da criança e efectuadas análises à urina.


Há quem discuta se a enurese tem causa hereditária. O que está comprovado é que existe uma predisposição familiar que pode dever-se a factores genéticos.


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Como agir com a criança que sofre de enurese?


Não a culpando nem humilhando. A criança não faz chichi na cama propositadamente, e sofre com a vergonha associada a esta situação. É fundamental desdramatizar a enurese, agir positivamente, estimulando a criança.


Procure estar atento aos comportamentos: evitar a ingestão de líquidos cerca de 3 horas antes da criança se deitar; evitar dar-lhe bebidas com cafeína; recomendar-lhe sempre a ida à casa de banho antes de se deitar; proteger o colchão com um resguardo de plástico; quando a criança faz chichi na cama, deve ser a própria a mudar o seu vestuário, os lençóis e a outra roupa da cama (não é um castigo, é um modo de a criança sentir que fica encarregue de agir sobre o seu problema, com a maior das naturalidades); recompensar a criança, felicitando-a quando deixou de fazer chichi na cama (mas evitar as recompensas materiais); estimular exercícios que podem aumentar a capacidade e o controlo da bexiga (incentivar a criança a aguentar hoje um minuto mais, aumentando o tempo pouco a pouco e ainda a fazer o exercício de interromper a micção por alguns segundos, continuando em seguida até esvaziar a bexiga).


É importante estar atento aos diferentes sinais, a prolongar-se a enurese, quando a criança se queixa de ardor ao fazer chichi, quando a criança urina muito, tem sede e apresenta perda de peso, não há que hesitar, é indispensável ir ao pediatra.


Há que saber agir com paciência e profundo afecto, tranquilizando a criança, em muitos casos resulta acordá-la de noite com frequência e pô-la no bacio.


Explique-lhe os inconvenientes que existem, por exemplo, quando se dorme fora de casa e se sofre de enurese.


Não há tratamento específico para a enurese, a regra principal é a motivação da criança e da família.


 


Que fazer, quando falham as medidas comportamentais?


Apesar de não haver um tratamento específico, há estratégias que podem ser usadas. Pode recorrer-se a aparelhos e/ou medicamentos. Há aparelhos que funcionam como alarmes, prendem-se a um pijama, ficam ligados a um sensor de líquidos e quando surgem as primeiras gotas de urina dispara o alarme. A criança aprende a levantar-se, desliga o alarme, usa o bacio ou vai à casa de banho. Estima-se que a eficácia destes alarmes é significativa.


Há também medicamentos que podem ser utilizados, estando o seu uso apenas recomendado por indicação do pediatra.


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Saber tirar partido do aconselhamento farmacêutico


Muitas vezes a enurese assume proporções de uma grande preocupação familiar: os pais, familiares e cuidadores não sabem lidar com a situação, não dispõem de informação sobre o que é a enurese (nem primária nem secundária), desconhecem as causas psicológicas e orgânicas, não sabem estabelecer uma agenda de medidas comportamentais para motivar a criança.


E muito menos conhecem as opções de tratamento e as circunstâncias que levam à pronta consulta médica.


Devido à sua proximidade, o farmacêutico deve ser procurado pelos familiares preocupados; seguramente que ele vai propor um plano de intervenções comportamentais e alertará os familiares para algumas situações que podem estar na origem da enurese.


O profissional de saúde lembrará que fazer chichi na cama é ainda considerado normal em crianças com menos de 5 anos e que uma atmosfera de stresse pode levar a criança a, episodicamente, fazer chichi na cama. Casos há em que a enurese pode ser uma manifestação de diabetes ou infecção urinária. Conte com o seu farmacêutico para o aconselhar sobre algumas medidas a tomar e, se necessário, encaminhar para o médico.


Ele irá certamente sossegar os familiares da criança lembrando-lhes que cada ano que passa, uma em cada seis crianças deixa de ser enurética; ou seja, aos 10 anos de idade é ínfima a percentagem de crianças que mantêm a enurese, desaparecendo praticamente na adolescência.


É no aconselhamento farmacêutico que rapidamente se pode apurar se as manifestações requerem uma ida ao pediatra, só este pode indicar, nesses casos, qual a abordagem adequada.



Fonte: FARMÁCIA SAÚDE - ANF

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