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Café: Amigo ou inimigo?

Cláudia Pinto

De manhã, à tarde e à noite... Depois das refeições ou a acompanhá-las. Um hábito, um vício ou uma necessidade? O café faz parte do quotidiano dos portugueses, é motivo de conversas, dúvidas e até alguns mitos. Será que o café é prejudicial para o coração ou a hipertensão? A resposta pode ser bem diferente daquela que imagina.



Está enraizado nos nossos hábitos culturais que "o café faz subir a pressão arterial e que os hipertensos não devem beber café porque pode agravar a doença hipertensiva", afirma o Prof. Gorjão Clara, professor da Faculdade de Medicina de Lisboa e especialista europeu em hipertensão. Este é um entre os muitos mitos contemplados nas conversas sobre café e que abordamos neste artigo. A ingestão de café "aumenta a frequência cardíaca, o tremor, a ansiedade, os movimentos intestinais, a insónia, aos que o tomam pela primeira vez ou das primeiras vezes". Estes efeitos iniciais desaparecem gradualmente à medida que a ingestão se vai tornando crónica.


Quem bebe e gosta de café, por vezes comenta: "Eu gosto muito de beber café, mas não o faço porque sinto taquicardia, ansiedade, aumento dos movimentos dos intestinos, e tira-me o sono. E como gosto muito, mas tenho todas estas reacções, só o bebo de vez em quando." Ou seja, muitas destas pessoas que ingerem café têm estes sintomas "porque surge sempre o efeito da primeira vez. A esmagadora maioria dos homens e das mulheres tem capacidade para gerar mecanismos de destruição dos componentes do café, dos quais a cafeína é o mais importante", acrescenta Gorjão Clara.


Apesar desta realidade, algumas pessoas são incapazes de produzir enzimas, que são estimuladas pela ingestão do café. "Nestas, o café é sempre responsável pelos efeitos acima descritos." A esmagadora maioria dos consumidores de café pode beber com regularidade sem ter os inconvenientes das primeiras ingestões. Gorjão Clara garante que "o café não faz subir a pressão arterial senão nas primeiras ingestões". O mesmo se passa com a tensão baixa. "Beber café para aumentar a tensão arterial só resulta se o consumo de café não for habitual", diz-nos o especialista europeu em hipertensão.


São estas informações enraizadas que originam todas estas ideias contraditórias. "Como a pressão arterial sobe com a ingestão de café em pessoas que não o costumam ingerir, gerou-se o conceito de que o café faz sempre subir a pressão arterial, que aumenta a frequência cardíaca e que é mau para o coração. E não é. Em média, passados cerca de três dias a ingerir café, o organismo habitua-se", salienta Gorjão Clara.


Da mesma forma, existem estudos recentes que apontam o café como útil na prevenção do Parkinson, para uma menor incidência de Alzheimer nos bebedores crónicos de café e para "o aparecimento mais tardio da diabetes tipo 2 (porque a nossa capacidade de produzir insulina com qualidade vai diminuindo à medida que envelhecemos)".


 


O café e os medicamentos


Desengane-se quem pensa que o café é prejudicial na toma de medicação. "Existem determinados tipos de medicamentos que são interferidos por outros factores, tais como o tabaco. Se um paciente fumar, pode interferir ou anular o efeito do um tipo de medicamento que se prescreve para a hipertensão ou doença coronária", explica o professor da Faculdade de Medicina de Lisboa. Muitas das pessoas que bebem café associam-lhe um vício terrível, que é fumar. Há um quadro de Almada Negreiros que retrata Fernando Pessoa à mesa do café com um cigarro na mão e uma chávena de café em cima da mesa, que destaca a ligação entre os dois.


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